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01 de agosto de 2006

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Tema: Abordagem Mística na Obra de Guimarães Rosa
Data: 18/05/06

Dirceu - Contagem / MG
A obra de Guimarães Rosa pode ser considerada surreal?

Dentro de uma classificação da literatura atual, enquadra-se na corrente do realismo fantástico, assim como as obras de Julio Cortazar, Jorge Luís Borges, Gabriel Garcia Márquez e outros. Guimarães Rosa Não gostava de rótulos. Observe esta curiosa passagem de um diálogo de Rosa e Günter Lorenz: Eu diria mesmo que, para a maioria das pessoas e não me excetuo, o cérebro tem pouca importância no decorrer da vida. O contrário seria terrível: a vida ficaria limitada a uma única operação matemática, que não necessitaria da aventura do desconhecido e inconsciente, nem do irracional. Mas cada conta, segundo as regras da matemática, tem seu resultado. Estas regras não valem para o homem, a não ser que não se creia na ressurreição e no infinito. Eu creio firmemente. Por isso também espero uma literatura tão ilógica como a minha, que transforme o cosmo num sertão no qual a única realidade seja o inacreditável.

Cláudio Soares Sales - Belo Horizonte / MG
É uma alegria falar sobre a obra de Guimarães Rosa e gostaria que fosse falado mais sobre o pensamento religioso ou, até mesmo, do aspecto dicotômico do ser na obra desse autor.

Acredito mesmo que há muito a falar sobre o paradoxo, a coincidentia oppositorum (a coincidência dos opostos) na obra de Guimarães Rosa.

Renata - Contagem / MG
Comentário: Gostaria de saber sobre a questão religiosa no Grande Sertão: Veredas.

Esta é uma questão central no livro, difícil de ser resolvida aqui, em poucas linhas. Vou tentar, todavia. Deus e o Diabo compõe o eixo de uma discussão da totalidade como paradoxo, como coincidência de opostos. Deus seria o centro fixo de uma circunferência em movimento desencadeado pelo Diabo. Repare que a epígrafe do livro é ?o diabo na rua, no meio do redemoinho?. Riobaldo procura uma demarcação entre o certo e o errado, o bem e o mal. O fato de ser uma procura, uma busca implica que não há desfecho, não há conclusão. O que existe é o homem e sua travessia como pautas e pactos indefinidos. Para uma compreensão maior, leia G.S.V. Metafísica do Grande Sertão Veredas, de Francisco Utéza. UTÉZA, Francis. JGR: metafísica do Grande Sertão. São Paulo. EDUSP, 1994. 459 p.

Deivisson - Belo Horizonte / MG
Gostaria de saber se existe alguma relação entre Guimarães Rosa e o esperanto, a língua universal. Tenho alguns documentos que falam que ele estudou o idioma e até chegou a praticá-lo. Isso é verdade?

Gostaria de ter acesso a esses documentos. Não os possuo. Sei que Rosa era fascinado pelo estudo das línguas em geral ? o que fazia parte da pesquisa da ?língua dos pássaros?, língua ou linguagem mística que daria acesso à totalidade, ao conhecimento da totalidade.

Renata - Belo Horizonte / MG
Gostaria de saber como Guimarães Rosa enxergava a figura do diabo. Para ele era uma figura humanizada? Ou era o próprio ser humano?

Riobaldo para livrar-se da culpa antes do possível pacto com o diabo quer que este (o diabo) não seja figura, mas um ente. Estaria disseminado nas coisas, nas pessoas, nos atos mal acabados. Veja esta passagem:

" Bem, o diabo regula seu estado preto nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças ? eu digo. Pois não é ditado: ?menino ? trem do diabo?? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio do redemoinho..."

Nome: Não quis se identificar
Gostaria de dizer que todos os participantes, ao comentarem sobre Guimarães Rosa, citaram várias palavras e vários comentários que traduzem a participação do autor na maçonaria. A maçonaria nada mais é do que entender a si próprio, ajudar aos outros e fazer com que isso traga o bem para a humanidade.

Guimarães Rosa teria pertencido à maçonaria no seu tempo de médico em Barbacena. No discurso de posse na Academia Brasileira de Letras refere-se a cidade como ?sagaz e espiritual?, ?um lugar geométrico?. Há vários estudos sobre a relação com a maçonaria. Cito dois. O primeiro intitula-se A simbologia da iniciação maçônica em O recado do morro de Guimarães Rosa, publicado no Suplemento Literário do Minas Gerais, em maio de 1987. Seu autor, Hugo Pontes discorre sobre o simbolismo da iniciação; a simbologia nas letras S e G no conto (sic) / novela; as personagens que compõe a Loja; a simbologia das cores, dos planetas, do Templo. Uma análise mais completa é encontrada na tese de Francis Utéza (o segundo de que falei), denominada ? A metafísica doGrande Sertão, publicada em 1994.
UTÉZA, Francis. JGR: metafísica do Grande Sertão. São Paulo. EDUSP, 1994. 459 p.


Adriana Nunes Martins - Belo Horizonte / MG
Nonada e Tutaméia são palavras que nos remetem a noção de vacuidade. Essa noção também está muito presente no budismo. Podemos fazer uma relação entre Guimarães Rosa e essa religião?

A respeito da relação com o budismo, aconselho a leitura do primeiro prefácio de Tutaméia ? terceiras estórias. De meu ponto de vista, a relação não é orientadora de uma religião, de uma ideologia. A relação é lúdica, ?drolática? (neologismo do autor). O nada residual, assim como as coisa pequenas, nonadas, aparentemente inessenciais, ?refletem por um triz a coerência do mistério geral, que nos envolve e cria?. A niilificação drolática (engraçada, com graça iluminadora) funciona como formulação ?sensificadora e concretizante, de malhas para captar o incognoscível?. (entre aspas, palavras do autor no referido prefácio).

Evilásio Silva - Santa Luzia / MG
Qual a influência de algumas ordens místicas, como a fraternidade Rosa Cruz, na obra de Guimarães Rosa?

Como respondi durante o programa, nada entendo da Fraternidade Rosa Cruz, isto é, esse assunto não faz parte da minha pesquisa. Todavia, para compensar um pouco esta minha ignorância, leia o seguinte trecho do poema Paraíso Filosófico de Magma, livro de poesia de Rosa:

No jardim das Hespérides, sem flores
na discrição dos tufos de folhagem,
passeiam passos lentos
homens de túnica longa,
como os magos da Rosa-Cruz
.............................................................

Os anciões perpassam
intérminos terraços,
com olhos tranqüilos, olhos gelados,
de tanto olharem o sol.
E as mãos tateiam calmas,
como se os dedos mergulhassem
a translucidez de uma água,
esculpindo
invisíveis e impossíveis formas novas.

Sérgio Souza - Brumadinho / MG
O que significa o nome do livro de Guimarães Rosa, ?Magma??

Conforme o dicionário de Houaiss, magma é massa mineral pastosa, em fusão, a grande profundidade da terra, cujos movimentos produzem os fenômenos vulcânicos e que, ao resfriar, cristaliza-se, dando origem às rocha ígneas. Guimarães Rosa denominou de Magma um livro de poemas, premiado pela Academia Brasileira de Letras em 1936. No discurso de agradecimento, Guimarães Rosa define como magma, seu mundo interior, poético, em ebulição que busca as formas adequadas de expressão. Assim, ele diz:

A satisfação proporcionada pela obra de arte àquele que a revela é dolorosamente efêmera: relampeja fugaz, nos momentos de febre inspiradora, quando ele tateia formas novas para a exteriorização do seu magma íntimo, do seu mundo interior. 

Tiago da Silva Mourão
Comentário: O que mais influenciou a obra de Guimarães Rosa: o eruditismo ou a sua vida no sertão?

 Leia o quarto prefácio de Tutaméia ? terceiras estórias. Como erudito, o autor dá forma à erística, à capacidade de argumentar e explicar do simples, do capiau, em que ele vê as finas priscas antenas para o mistério que há em tudo. Leia principalmente, o final do prefácio, conversa entre o autor e o vaqueiro Zito:

Ora, pois, o que no sertão só se pergunta ? Que é que faz efeito e tem Valença? Zito contou-me estórias, das Três Moças de Trás-as-Serras, o Cavalo-que-não-foi-achado, da Do-Carmo. Deu de adir: - A gente não quer mudança e protela, depois se acha a bica do resguardo, menino afina para crescer, titiago-te, a bicheira cai de entre a creolina e a a carne sã [...] o que, com dito ademais, vertido compreender-se-ia mais ou menos: o mal está apenas guardando lugar para o bem. O mundo supura é só a olhos impuros. Deus está fazendo coisas fabulosas. Para onde nos atrai o azul? ? calei-me. Estava-se na teoria da alma.

Heloísio Nogueira - Contagem / MG
Gostaria de saber qual seria a influência ou essência para estimular os jovens, nos dias de hoje, a fazer a leitura da obra Grande Sertão: Veredas?

Como professora adotaria o procedimento didático de comparar, nalisar comparativamente, os textos escritos pelo autor e as versões para cinema e televisão.
 Outro procedimento para estimular a leitura das obras de Rosa é fazer a leitura das entrevistas dadas pelo autor. A principal é encontrada na coleção Fortuna Crítica, dirigida por Afrânio Coutinho. O volume 6 é composto por textos selecionados por Eduardo de Faria Coutinho. O texto a que me refiro é o Diálogo com Guimarães Rosa. Rsa conversa com Günter Lorenz (Gênova, janeiro de 1965), por ocasião de um congresso de escritores latino-americanos. O texto é riquíssimo no que tange aos processos criativos de Rosa, à sua cosmovisão, a conceitos de arte, literatura, religião, etc.

COUTINHO, Afrânio; COUTINHO, Eduardo F. A literatura no Brasil: volume 6. São Paulo: Global, 1997. 550p.


Ana Paula Carvalho - Belo Horizonte / MG
Como se explica a capacidade de Guimarães Rosa de se tornar, metaforicamente, um verdadeiro vaqueiro.

Guimarães Rosa nasceu no interior mineiro, viveu parte da vida no interior de Minas Gerais. Na entrevista com Günter Lorenz, diz, a certa altura:

Nasci em Cordisburgo, uma cidadezinha não muito interessante, mas para mim, sim, de muita importância. Além disso, em Minas Gerais, sou mineiro. E isto sim é o importante, pois quando escrevo, sempre me sinto transportado para este mundo. Cordisburgo.

Pela origem, sente-se sempre voltado para o remoto, o estranho, que identifica com o sertão. Com o sertão, ao qual seus antepassados se apegaram com ?tanto desespero?, em busca de raízes, das raízes perdidas nas migrações. O autor viajou com vaqueiros ? como Zito, Manuelzão ? que eram, como todos os homens do sertão (ele afirma) fabulistas por natureza.

Rooselvelt Lacerda de Souza - Belo Horizonte / MG
Guimarães Rosa pertenceu a alguma instituição de caráter místico/religiosa que possa ter estimulado esse lado de sua obra?

Guimarães Rosa, em diálogo com Günter Lorenz, afirmou ser um místico. Acredito que era um místico, sem um misticismo específico. Como seu personagem Riobaldo, bebeu de várias águas, colheu em variadas fontes filosóficas, religiosas, os operadores de criação que melhor se aplicavam á sua escritura. ?Nunca me contento com alguma coisa. Como já lhe revelei, estou buscando o impossível, o infinito? ? disse ele a Lorenz.

Pedro Eduardo - Belo Horizonte / MG
Existe uma intertextualidade, principalmente no discurso, entre ?Grande Sertão: Veredas? e ?Meu tio de lauaretê??

O Suplemento Literário do Minas Gerais em 23 de março de 1974, publicou o texto de Haroldo Campos, A linguagem do lauaretê. Nele, o ensaísta ressalta o estágio mais adiantado do experimento rosiano com a linguagem e com a prosa. Além disso, Meu tio, o lauaretê, é um longo monólogo/ diálogo com um interlocutor mudo, como em Grande Sertões: Veredas. O conto foi publicado inicialmente na Revista Senhor, de janeiro de 1961. Pode-se, pois, fazer um trabalho intertextual em torno do monólogo-diálogo, das metamorfoses realizadas pelo experimento lingüístico.

Raimer Lisboa - Belo Horizonte / MG
Quais os pontos de ligação entre a cosmologia de Grande Sertão: Veredas e a vida urbana contemporânea?

Acho que a questão colocada levaria a questão sobre Deus e o Diabo, a androginia ... Não percebo a pertinência dessa ligação, porque trabalho sobretudo com a estrutura narrativa de Rosa.

Cristina Viana - Belo Horizonte / MG
Na obra de Guimarães Rosa existe um traço existencialista?

Sônia Maria Viegas, prematuramente falecida, realizou um trabalho de mestrado A palavra poética e a palavra filosófica no Grande Sertão: Veredas (UFMG, 1977), em que aborda a dimensão metafísica da palavra, a qual ?situa-se no limiar de uma reflexão filosófica com base em nossas vivências e em nossa linguagem?. Em 1994, Francis Utéza, lançou J.G.R: metafísica do Grande Sertão. Esses trabalhos parecem-me os mais interessantes, entre outros. 

Wilson Gustavo -Belo Horizonte / MG
Qual a relação do livro com as religiões?

 Vou responder-lhe com as palavras do próprio Riobaldo, narrador de Grande Sertões: Veredas:

Hem? Hem? O que mais penso, texto e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece, principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito, de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardeque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a bíblia, e ora, cantando hinos belos deles.

Essa somatória permite ao autor reflexões sobre o bem e o mal, Deus e o Diabo, o pacto e a pauta tanto da existência quanto da narrativa.

Ana Paula Pimenta Queiroz Caetano - Ribeirão Preto / São Paulo
Boa a Noite a todos e parabéns pelo excelente programa! Gostaria de saber se a professora Ana Maria de Almeida teve contato com a obra de Carl Gustav Jung (estudioso da psicologia) que desenvolveu sua teoria analítica a partir dos estudos alquímicos. Fico muito interessada na sua tese e gostaria de obtê-la de alguma forma. Ficaria grata se fosse auxiliada em relação a isso. Muito obrigada!

As obras de Jung forneceram-me suporte importante para a conceituação alquímica, para a relação entre os processos de solve et coagula do Opus e os processos de deslocamento e condensação da narrativa (metonímias e metáforas). Aproveitei também os estudos sobre o Puer aeternus (o menino, o andarilho, o viajante da eterna viagem, o louco do Tarô), scintillae (centelhasm faíscas, hiatos para o ouro da compreensão fugida). Entre outros, Mysterium coniunctionis, Símbolos da transformação, Psicologia e Alquimia foram fontes importante para meu trabalho.

Júlio Anastácio - Belo Horizonte / MG
Durante sua posse na Academia Brasileira de Letras, Guimarães Rosa teria dito uma frase que ficou famosa, ?As pessoas na morrem, ficam encantadas?. Mas eu soube que ele já teria dito essa frase 41 anos antes daquele momento. Gostaria de saber quando foi a primeira vez que ele a pronunciou e por quê? Acredito que o momento tenha sido muito marcante para ele te-la repetido depois de tanto tempo.

Como médico e como místico, o escritor era muito tocado pela morte. Em 1947, falando de si mesmo, em dados biográficos curtos, declarou: ?Acha que não morrerá? (Arquivos implacáveis de José Conde). Renard Perez, assim descreve sua agonia ante a morte de um paciente em Itaguara, município de Itaúna:

Perder um doente era, para ele, algo de trágico. E uma vez em que isso aconteceu ficou aflitíssimo, sem saber que resolução tomar. O padre já esperava ao lado do morto, para encomendar-lhe a alma, e Guimarães ainda lhe aplicava injeções sobre injeções, como se pretendesse ressuscitá-lo ..?Ao amigo Geraldo França de Lima, ao aproximar-se da Academia Brasileira de Letras, disse: ?- Geraldo, não tenho segredo para você. Mas guarde reserva: eu não chego ao fim deste ano?.

Igara Silva - Belo Horizonte / MG
Qual a importância da epifania na obra de Guimarães Rosa? Guimarães reflete a literatura de sua época.

No conceito místico e religioso a epifania é uma aparição (de entidades benévolas ou malévolas) mediadas por formas possíveis de serem vistas ou entendidas pelos mortais. Riobaldo debate precisamente as formas de manifestação de Deus e do Diabo, sem conseguir, em sua angústia, concretiza-las de modo definitivo.

Igara Silva - Belo Horizonte / MG
Numa análise mística, o que significa A Terceira Margem do Rio das Primeiras Histórias de Guimarães Rosa?

De acordo com a minha análise, A Terceira margem do rio corresponde à 6ª carta do Tarô, articulado por Rosa nas Primeiras Estórias. Como se sabe, o Tarô, mais do que um baralho de adivinhações da sorte, é um livro mudo (Mutus líber) feito só de imagens, em que o iniciante aos Mistérios aprofundava suas reflexões. Tornado-se um puer aetermus (criança eterna), o viajante da Rota Real, buscava as origens, as raízes da vida. Assim o pai, em A Terceira margem do Rio, aventura-se numa paradoxal viagem numa rota flutuante, em demanda do espaço sagrado, sem limites,sem margem fixa.
 NA 6ª carta do Tarô, vemos o viajante da Rota sendo visado por Eros (a pulsão vital), convidado a fazer uma escolha (figurada por duas mulheres). Na 6ª estória o pai torna-se o homem-rio, ser flutuante a evoluir para as curvas infinitas do universo e da sabedoria, também sem limites.

Fabrício da Silveira - Paraopeba / MG
Como você explica, a partir da alquimia, o conhecimento que Riobaldo julga adquirir a partir do pacto firmado com Mefistófeles?

O pacto ou pauta implica tanto um contrato, um acordo, quanto um jogo de modulações, de contradições. No sertão, quanto se trata do diabo, do acordo com o diabo, fala-se pauta ou pacto. Rosa joga com o significado de pauta, pentagrama musical, em que se inscrevem as notas, as múltiplas possibilidades de se executar a ?música? da narrativa. No sentido de alquimia, trata-se da coincidentia oppositorum, coincidência de opostos, de contrários, única forma de se atingir ou compreender a totalidade (seja do Bem, seja do Mal).

Igara Silva - Belo Horizonte / MG
 Há como traduzir Guimarães Rosa sem trair sua obra?

A melhor resposta para a questão de como traduzir Guimarães Rosa é encontrada em sua correspondência com o tradutor italiano Edoardo Bizzarri. A sintonia entre autor e tradutor é perfeita. Em 6 de novembro de 1963, o autor escreve a Bizzarri a propósito do Coco de festa, de Chico Barbós (epígrafe geral de Corpo de Baile quando publicado em volume único, isto é, em um só volume), manifestando seu etusiasmo pela tradução.

A tradução de COCO saiu fabulosa, formidável, estupenda, incrível (chega a espantar-me e comover-me, ver como V. é severo consigo mesmo). Não sei, mas V., para mim, cresce a cada momento. Paradio a Bayer ?Se é Bizzarri ? é bom! Você é um mistério. V., em tudo, me permite o puro prazer de a d mi r a r. Não há linha, nem coisinha de sua lavra, que não me dê o ?frêmito?. Tenho recebido, já editadas ou ainda datilografadas, peças de tradutores meus, em francês, italiano, inglês, norte-americano, alemão, ?austríaco?, espanhol,?uruguaio/argentino? (platenho), tudo de bom ,em geral, mas sem transmitir-me essa imediata sensação de invulnerabilidade e plenitude, de façanha acabada e perfeita, ida ao limite ? que o que V. escreve me traz. E, com isto que digo não é euforia egocêntrica minha, nem lisonja barata, mas constatação sincera fico pensando. Que predisposição é esta? Alguma espécie de correspondência anímica, ou de igual comprimento de ondas de sensibilidade? Sinto-me com vocação para ser...seu discípulo.

Todas as traduções eram, acompanhadas pelo autor.

Roger Amaral - Belo Horizonte / MG
Além das inserções filosóficas, há nos textos de Guimarães Rosa a presença de temas místicos e esotéricos?

O programa discorreu sobre temas místicos e esotéricos. Para maior conhecimento, leia o livro de Utéza: UTÉZA, Francis. JGR: metafísica do grande sertão. São Paulo: EDUSP,1994. 459 p. 

 

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